Tuesday, January 30, 2007

O Futuro da ExperimentaDesign

Apresenta-se aqui um comunicado da Direcção da ExperimentaDesign, relatando desenvolvimentos recentes que podem vir a comprometer o futuro daquela que é a maior manifestação nacional de Design, com uma projecção internacional que começa a ser notável. Em seguida, apresenta-se carta de solidariedade hoje enviada pelo Departamento de Design da FBAUP. Seguiu hoje ainda documento para todas as Escolas de Design do país propondo uma mobilização geral das mesmas no sentido de contribuirmos colectivamente para a viabilização e longevidade da ExperimentaDesign.


1. COMUNICADO PÚBLICO DA DIRECÇÃO EXD

A Experimenta decidiu cancelar a quinta edição da “ExperimentaDesign - Bienal de Lisboa” que deveria realizar-se entre 12 De Setembro e 4 de Novembro deste ano. O cancelamento deve-se única e exclusivamente ao incumprimento pela parte da Câmara Municipal de Lisboa do compromisso assumido por esta autarquia a 22 de Junho de 2006 relativamente a este evento.

De forma inesperada a Experimenta recebeu a 12 de Dezembro de 2006 uma carta, datada de 4 de Dezembro, onde, laconicamente, nos foi transmitido que a Câmara Municipal de Lisboa não iria atribuir à ExperimentaDesign2007 – Bienal de Lisboa a verba de 500 mil euros com que se tinha comprometido a 22 de Junho desse mesmo ano ou “qualquer outra contribuição financeira à bienal por motivos de conveniência e de oportunidade – e num contexto de contenção orçamental.”

A alteração da decisão do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Professor António Pedro Carmona Rodrigues, foi tomada de forma unilateral ou seja, sem consultar o outro parceiro estratégico da bienal, o Estado Português, nomeadamente o Ministério da Cultura, com quem a Experimenta tinha já assinado no dia 3 de Novembro de 2006 um protocolo relativo à próxima edição da Bienal de Lisboa, facto que foi nessa data imediatamente comunicado ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e o Ministério da Economia, entidade com a qual a Experimenta estava também a negociar uma parceria estratégica como era igualmente do conhecimento da Câmara Municipal de Lisboa.

A montagem financeira da ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa efectua-se através de um desenho que pressupõe uma parceria estratégica entre a sociedade civil, a Autarquia lisboeta e o Estado Português.
A quinta edição da bienal foi distinguida a 14 de Junho de 2006 com o Alto Patrocínio do Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva.

Não será demais voltar a dizer que a ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa é:

• Um projecto único e inovador no contexto nacional e internacional, pensado e produzido por portugueses, cujo conceito não foi importado de nenhum outro local;
• Um caso de estudo de sucesso que tem sido, por esse motivo, apresentado como tal nas mais diversas cidades do mundo e objecto de estudo em diversos “think tank's” internacionais, que coloca Portugal e Lisboa no centro das diversas actividades da área do design mundial;
• O único evento com estas características na Península Ibérica, com um potencial extraordinário no que se refere ao desenvolvimento das relações com a América Latina, com a China e a Índia no contexto europeu;
• Uma bienal considerada pela critica e pelos diversos agentes da área como um dos melhores, mais bem organizados e mais importantes eventos de design internacionais;
• Uma bienal que provou ter a capacidade de atrair um público internacional de alto nível e que contribui de forma determinante para a qualificação da oferta turística e cultural lisboeta e que representa para a Câmara Municipal de Lisboa um investimento financeiro de apenas 250.000 euros anuais;
• Uma bienal que serve de plataforma de estímulo, promoção e divulgação da capacidade criativa e produtiva portuguesas na área do design, arquitectura e criatividade;
• Um caso de estudo de sucesso apresentado como tal no âmbito do balanço e perspectivas futuras do Programa Operacional da Cultura, a convite da unidade de gestão deste programa, que apoiou por duas vezes a Bienal;
• Uma alavanca para a economia portuguesa e lisboeta, investindo nos criadores portugueses, nomeadamente na área do design, arquitectura e criatividade, articulando o seu trabalho com o tecido industrial e empresarial;
• Uma bienal portuguesa que tem demonstrado ao longo dos anos conseguir atrair investimento estrangeiro para o nosso país sob a forma de uma rede de co-produções com os mais prestigiados interlocutores internacionais e com diversos organismos estatais dos mais importantes países do mundo;
• Uma bienal que é mais de 80% gratuita e que oferece à capital portuguesa e ao país um mês e meio de programação cultural continua e de elevada qualidade e com um serviço educativo que apoia toda a programação;
• Um evento que apresenta a mais valia de uma forte estratégia de comunicação internacional integrada no seu orçamento e uma rentabilização de alguns dos projectos apresentados na bienal após o fim de cada uma das edições;
• Um projecto que tem sido, até agora, sempre aprovado por unanimidade na Assembleia Municipal da Câmara Municipal de Lisboa e obtido o apoio do Estado Português, o Alto Patrocínio do Presidente da República e de um grupo altamente credenciado de mecenas, nacionais e internacionais.

É pois extraordinário que, no ano em que Portugal assume a Presidência do Conselho da União Europeia, a cidade que dá o nome a um dos mais importantes documentos estratégicos da União Europeia, a Agenda de Lisboa, onde é realçado o papel da criatividade e da cultura como vectores de coesão e desenvolvimento social, a Câmara Municipal de Lisboa, de uma forma unilateral, elimine deste modo um projecto desta importância e significado, criado por uma associação sem fins lucrativos e onde a autarquia investe apenas 20% do seu orçamento total, que é de 2.600.000 euros, montante esse dividido em dois anos.

É difícil acreditar que no momento em o design teve pela primeira vez lugar de destaque no “World Economic Forum” de Davos em 2006, sob o tema “Inovação, Criatividade e Design Estratégico” e em que se assiste a um crescente número de cidades que tentam criar eventos dedicados ao design como prova do seu dinamismo e competitividade e do reconhecimento da importância desta disciplina para o desenvolvimento sustentado da sociedade, o actual executivo camarário da capital portuguesa, sem qualquer diálogo e faltando ao compromisso anteriormente assumido, acabe deste modo com a ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa.

As consequências do cancelamento de um projecto no qual foram já investidos ao longo de 4 edições, desde 1998 a 2006, mais de 8 milhões de euros, que posicionou a capital portuguesa e Portugal no circuito internacional dos grandes eventos culturais com um projecto pensado, concebido e produzido por portugueses, serão devastadoras.

Não será só o embaraço perante a comunidade internacional mas acima de tudo a perda de um evento que promovia de forma definitiva a criatividade e capacidade portuguesas, formava e informava o público português e atraía a Lisboa e a Portugal milhares de visitantes.

No momento em que recebeu a carta da Câmara Municipal de Lisboa, a 12 de Dezembro de 2006, e a cerca de 9 meses do evento, a Experimenta tinha pronto o programa da Bienal de Lisboa, as parcerias institucionais e internacionais estavam estabelecidas e o grupo de mecenas e marcas associadas da bienal estava definido. A comunicação internacional estava há muito iniciada e já reflectida nos calendários internacionais dos eventos na área da cultura e do design e a comunicação nacional tinha o seu primeiro momento agendado para dia 28 de Fevereiro.

Tendo a Câmara Municipal de Lisboa assumido um compromisso com a Experimenta relativamente à quinta edição da ExperimentaDesign – Bienal de Lisboa e tendo por esse motivo a Experimenta desenvolvido todo o programa da Bienal de Lisboa para 2007 a Experimenta irá responsabilizar a Câmara Municipal de Lisboa por todos os danos causados por este cancelamento através dos meios disponíveis na Lei Portuguesa.

Experimenta
Lisboa, 29 de Janeiro de 2007


2. CARTA ENVIADA À DIRECÇÃO DA EXD PELO DD/FBAUP a 30 de Janeiro de 2007
(que mereceu já resposta da Dra. Guta Moura Guedes, assinalando grande sensibilização pela nossa iniciativa e, de modo inequívoco, esperança em estratégias a definir).

Cara Equipa da ExperimentaDesign:

Cara Dra. Guta Moura Guedes:

Tendo o Departamento de Design da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto tomado conhecimento, primeiro pela imprensa deste último fim-de-semana, em seguida pelo comunicado publicado em http://www.experimenta.pt/experimenta/pt/experimentadesign/exd07.htm, do cancelamento da edição de 2007 da ExperimentaDesign, inspirada no tema “It’s about time”, nunca poderia reagir indiferentemente ou pactuar pelo silêncio com algo que avalia ser um retrocesso grave no panorama científico, artístico e cultural do Design.

Consideramos grave a situação quando esta sucede numa altura de emergência de um discurso que elege a inovação e a diferenciação como vectores de desenvolvimento absolutamente essenciais. Sendo o Design, simultânea e crescentemente, fonte primordial de autoria e interdisciplinaridade, terá consequências profundas no conhecimento e na produção cultural e artística que desta Área do Saber derivam.

Não só a apreciação do trabalho já feito pela ExperimentaDesign é imensa, como mais profunda é ainda a expectativa que temos (e aqui o tempo verbal empregue é propositado e defendemos que correcto) no trabalho presente e futuro que a ExperimentaDesign faz e virá a fazer.

Todos continuaremos a existir se a ExperimentaDesign se não realizar este ano. Todavia, todos ficamos muito mais pobres se tal suceder. Em particular aqueles que constroem do e no Design o seu território fluido de aprendizagem, experimentação artística, missão comunicacional, investigação e desenvolvimento, dificilmente escaparão ao sentimento de perplexidade e consequente solidão que a eventual não existência de um interlocutor extremamente qualificado e experimentado representaria. Interlocutor que, pelo espaço e tempo que instala, é fonte de desafio e celebração, premissas fundamentais ao crescimento intelectual e, logo, ao desenvolvimento académico, científico e artístico. Este deverá sempre suportar a investigação e o ensino superiores, nunca podendo ser exclusivamente alimentado a partir de si, necessitando intrinsecamente do confronto com quem tenha um programa e o argumente, como sempre foi e, acreditamos, sempre será, o caso da ExperimentaDesign.

Deste modo e como evidência consequente, apelaremos, contribuiremos e promoveremos uma manifestação de interesse por parte da denominada “Sociedade Civil”, especialmente dirigida às, e erigida a partir das, Escolas de Design de Portugal, com o objectivo de confrontar quem quer inviabilizar o que sempre foi viável e se soube transformar em necessidade. Pretendemos tornar público e inequívoco que o saber e a investigação em Design em Portugal já não estarão dispostos a calar a supressão de uma fonte privilegiada e que tem vindo a construir o seu universo, a sua autoridade e a sua legitimidade num território anteriormente votado ao abandono, e que hoje se projecta numa dimensão internacionalmente reconhecida e validada.

Desde já declaramos a nossa inteira solidariedade no processo de definição de estratégias pragmáticas (de contestação ou de identificação) que viabilizem o futuro da ExperimentaDesign, exigindo a sua sobrevivência e expansão ao nível da excelência e reconhecimento internacionais já assinalados.

O Departamento de Design, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Heitor Alvelos, Presidente

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